Apenas um Pensamento Part 2 4 min read

O Dissolvente

Se você não assistiu Uma Cilada para Roger Rabbit, coloque na sua lista. Assista. Depois volte.


No filme, há apenas uma coisa que pode matar um personagem animado.

O Juiz Doom a chama de O Dissolvente.

É uma mistura de aguarrás, acetona e benzeno — os mesmos produtos químicos que animadores do mundo real usavam para apagar tinta dos cels de animação.

A coisa que pode desfazer um personagem animado já estava na sala onde ele foi criado.


Para um personagem animado, o contato é instantâneo.

Não há como lutar contra isso. Sem declínio lento. O Dissolvente os toca e eles simplesmente param de existir.

Não é morte. É apagamento.


Para um ser humano, esses mesmos produtos químicos funcionam de forma diferente.

Eles não se anunciam. Você não os sente chegar.

O benzeno penetra silenciosamente na medula óssea, perturbando a produção de células sanguíneas pelo corpo. O período de latência entre a exposição e o câncer é tipicamente de cinco a trinta anos.

Pintores aposentados. Animadores. Mecânicos. Diagnosticados décadas após o fim do trabalho — depois de ter seguido em frente, criado famílias, esquecido o cheiro da sala.


Mas isso deixou de ser uma história do passado há muito tempo.

O benzeno foi encontrado em protetor solar, xampu seco, desodorante em spray, antisséptico para as mãos e tratamento para acne. Em testes independentes recentes, apareceu em 80% das amostras de protetores solares analisadas. Unilever, Procter & Gamble, Johnson & Johnson — todas emitiram recalls nos últimos anos. Você pode verificar isso. Os recalls são registros públicos.

Isso é apenas o benzeno.


Os PFAS — chamados de “químicos eternos” porque o corpo não consegue decompô-los — estão na sua frigideira antiaderente, na sua caixa de pizza, no seu saco de pipoca para micro-ondas, na sua jaqueta impermeável, na embalagem resistente à gordura do seu delivery. Eles se acumulam no sangue, fígado e rins. Foram encontrados em 95% das pessoas testadas. Estão relacionados ao câncer, supressão imunológica e envelhecimento biológico acelerado. Estão em produtos de consumo desde a década de 1940.

Os ftalatos são disruptores endócrinos no esmalte de unhas, laquê para cabelo e quase tudo que tem a palavra fragrância no rótulo — porque os fabricantes não são obrigados a divulgar o que cria um aroma. Uma palavra cobre dezenas de compostos. Você pode confirmar isso na base de dados do Environmental Working Group. A pesquisa é gratuita.

Os parabenos estão no seu creme dental, shampoo e hidratante. São absorvidos pela pele. Estão relacionados ao câncer.

O formaldeído está em alguns produtos de alisamento para cabelo — mas você não o verá listado. Os fabricantes usam compostos que liberam formaldeído lentamente ao longo do tempo, o que lhes permite escrever outra coisa no rótulo. O mesmo produto químico. Palavras diferentes.


Nenhum desses altera o pH.

São compostos orgânicos. Um medidor de pH — o instrumento padrão para detectar se algo é quimicamente prejudicial — não consegue lê-los. Eles não se registram como ácido. Não se registram como base.

Eles se registram como nada.


A FDA proíbe ou restringe 11 produtos químicos em cosméticos.

A União Europeia restringe mais de 2.000.

Os mesmos produtos. Prateleiras diferentes. Regras diferentes sobre o que conta como dano.


A mesma substância.

Para um personagem animado: visível, imediato, total.

Para um ser humano: invisível, acumulando-se, terça após terça após terça.

Em ambos os casos — fora do alcance dos instrumentos que construímos para nos dizer quando algo está errado.


Aqui está o que continua me incomodando.

Ninguém escondeu isso. Os estudos estão publicados. Os recalls são anunciados. As listas de ingredientes estão nas embalagens — apenas escritas em uma linguagem que a maioria das pessoas nunca aprendeu a ler.

O Dissolvente nunca foi um segredo.

Apenas recebeu um nome diferente, foi colocado em um frasco mais bonito, e posicionado numa prateleira na altura dos olhos.

E aprendemos, sem que ninguém precisasse nos ensinar, a não perguntar o que havia dentro.